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v. 3 n. 1 (2021): "O Pensador” e “O Homem Cansado"

Sobre todas as esculturas que figuram no Leste de Angola, destacam-se duas que estiveram em diversas exposições nacionais e internacionais especificamente “O Pensador” e “O Homem Cansado”. Estas figuras são parecidas, pois ambas reproduzem um homem negro de idade madura, sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. No entanto, são completamente diferentes. “O Pensador” tem os pés bem assentes na terra, o corpo direito e em todo ele há como que uma dignidade humana de um ser que vive e pensa. Está “voltado” para dentro de si mesmo. Tem os olhos fechados e uma expressão de profunda concentração: “vemo-lo pensar”.

Quanto ao “Homem Cansado” antes de falar nele será melhor explicar o que significa.

Os cokwes têm um sentido prático muito vivo e que se não prende com sentimentalismos. Assim acontece, de resto, à quase totalidade dos povos subevoluídos, como acontece também com aqueles cuja civilização atingiu um grau de elevado desenvolvimento.

Inspirados por esse sentido prático, muitas tribos africanas, entre as quais os cokwes, consideravam que pessoas impossibilitadas de trabalhar por deficiência física ou velhice não tinham o direito de viver. E assim também para todos aqueles a quem Deus prolongou a vida para além do seu tempo útil, chegava um dia em que a gente da sua aldeia, aqueles com quem sempre viveu, os seus companheiros, os seus amigos, a sua família, o convidavam a ir para a cabana da selva, que era distante e solitária.

O velho ou a velha era acompanhado pela sua gente até à cabana, numa última manifestação de deferência. Equivalia isto a um funeral. A família e os amigos choravam e gritavam. Despediam-se. Deixavam-lhe água e comida. Entregavam-no à sua morte. Então o homem velho, o homem inútil, o homem cansado, ficava só, à espera de morrer.

É evidente que este costume ancestral já há muitas décadas que não se pratica, na Lunda.

Mas este costume tribal encontra-se, ainda hoje, expresso numa escultura, com linhas exageradamente alongadas do corpo de homem, na curva acentuada das costas, nas pernas muito delgadas, muito compridas, onde o escultor não achou necessário que figurassem os pés - para quê? - se já não tem terra para pisar, se já não é bem deste mundo...

Está expresso também nos braços, igualmente longos e delgados, de cotovelos agudos, que seguram uma cabeça sem expressão, alheada de tudo e quase insensível, à espera do que lhe há de acontecer.

O “Homem Cansado” reflecte um profundo desprendimento e deixa uma grande interrogação aos vindouros (Reis, 2005).

PhD. Manuel Sonhi Fidel Manassa

Publicado: 14-06-2021
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